O Governo português anunciou, esta quarta-feira, 14 de Outubro, a Lufthansa como vencedora do processo de privatização parcial da TAP, depois de uma reunião do Conselho de Ministros. O grupo alemão fica com 44,9% do capital da transportadora portuguesa, num negócio que avalia a companhia áerea em 2.5 mil milhões de euros e que tem, nas rotas para África, e muito em particular para Angola, um dos argumentos centrais da proposta vencedora.
A oferta da Lufthansa superou a da rival Air France-KLM em 16%, num processo que se arrastava desde 2024. O negócio está estruturado em duas fases: a primeira garante ao Estado português 1.2 mil milhões de euros, a segunda mais 1.3 mil milhões, somando os 2.5 mil milhões de euros de avaliação directa da TAP. Dos até 49,9% do capital postos à venda, 5% ficam reservados a trabalhadores, mantendo o Estado a maioria accionista.
Está ainda prevista uma segunda fase, a concretizar até 2028, em que o Estado português poderá trocar a sua participação remanescente por acções na holding da Lufthansa, um movimento que, segundo a proposta vencedora, poderia tornar o Estado o segundo maior accionista do grupo alemão. O primeiro-ministro Luís Montenegro classificou a escolha da Lufthansa como “a melhor escolha para o futuro” da TAP.
O negócio está longe de fechado. Falta a aprovação formal do Conselho de Ministros aos instrumentos contratuais (contrato de compra de acções e acordo parassocial) e, sobretudo, o aval da Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia, que o Ministério das Finanças português estima poder demorar entre 18 a 24 meses. A conclusão efectiva da privatização só é esperada em 2028. A Air France-KLM, que ficou de fora, manifestou desapontamento mas garantiu que vai continuar a ligar Portugal ao mundo e a estudar outras formas de reforçar a sua presença no país e na América do Sul.
Porque é que Angola está no centro da proposta
Um dos argumentos mais citados pela Lufthansa ao longo do processo de privatização foi precisamente a posição geográfica de Lisboa como porta de entrada para África. Segundo o director de estratégia do grupo alemão, voos de Lisboa para destinos africanos (e também para a América do Norte) permitem reduzir o tempo de viagem em cerca de 10% em comparação com ligações equivalentes a partir de Frankfurt ou Munique, os dois principais hubs da Lufthansa. Na prática, isso significa que a Lufthansa não está apenas a comprar uma companhia aérea portuguesa: está a comprar uma posição privilegiada na rota Europa–África, da qual Angola é um dos destinos mais relevantes.
Essa relevância tem expressão directa na operação actual da TAP no país. Desde Dezembro de 2025, a companhia opera a partir do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, com capacidade para 15 milhões de passageiros por ano, cerca de cinco vezes mais do que o antigo Aeroporto 4 de Fevereiro, assegurando um voo diário entre Lisboa e Luanda e uma ligação semanal entre o Porto e Luanda. A TAP foi a segunda transportadora europeia a transferir-se para o novo aeroporto, depois da Air France, que encerrou quase 50 anos de operação no antigo terminal.
Uma coincidência que não é bem uma coincidência: a Lufthansa já está em Angola, do lado da TAAG
O que torna esta operação particularmente relevante para o mercado angolano é que a Lufthansa já tem, desde Novembro de 2025, um pé dentro de casa, do lado angolano. Nessa altura, o Governo angolano assinou um contrato de serviços com o grupo alemão para apoiar a reestruturação da TAAG, a transportadora aérea nacional, cobrindo áreas como governação corporativa, operações comerciais, manutenção, engenharia, formação e definição de rotas estratégicas. O ministro dos Transportes, Ricardo Viegas d’Abreu, confirmou nessa ocasião que a parceria está ligada aos planos de abertura de capital da TAAG, prevista no âmbito do programa de privatizações PROPRIV, e admitiu que a Lufthansa “poderá ser um parceiro desejável” nesse processo.
Angola confirmou, através do Decreto Presidencial n.º 36/26, de Fevereiro de 2026, a intenção de avançar com a privatização parcial da TAAG ainda este ano, entre dez activos prioritários do Estado. O secretário de Estado das Finanças, Ottoniel dos Santos, descreveu a TAAG como um dos dossiers que o Governo pretende fechar antes do fim do PROPRIV, e o ministro dos Transportes confirmou que a transportadora tem estado em conversações com vários investidores internacionais, à procura simultaneamente de um parceiro tecnológico, comercial e financeiro, descrevendo o perfil ideal como “grandes grupos aéreos europeus ou norte-americanos”.
O que isto pode significar para o mercado angolano
A confirmação da Lufthansa como nova accionista de referência da TAP reforça um cenário em que o grupo alemão passa a ter influência, directa ou indirecta, nos dois lados da principal rota aérea entre Angola e a Europa: na TAP, através da nova posição accionista, e na TAAG, através do contrato de reestruturação em curso e da porta aberta a uma futura participação de capital. Para o mercado angolano, isso pode traduzir-se em alguns cenários a acompanhar nos próximos meses:
- Maior coordenação comercial entre TAP e TAAG na rota Lisboa-Luanda, hoje servida por ambas as transportadoras com múltiplas frequências diárias e semanais, caso a Lufthansa venha a ter peso simultâneo nas duas companhias;
- Pressão renovada sobre a TAAG para concluir a sua própria reestruturação e processo de privatização, num contexto em que o seu principal parceiro de reestruturação passa também a ser accionista do principal concorrente europeu na rota para Angola;
- Consolidação de Lisboa como hub preferencial para ligações entre Angola e a Europa, reforçando o argumento estratégico que a própria Lufthansa já tinha utilizado durante o processo de privatização da TAP;
- Possível reforço de frequências e capacidade entre Portugal e Angola a médio prazo, à medida que o grupo alemão integra a TAP na sua rede global e procura rentabilizar a vantagem geográfica de Lisboa para África.
Nada disto está, por ora, confirmado publicamente por nenhuma das partes, nem a Lufthansa, nem a TAP, nem o Governo angolano ou a TAAG se pronunciaram especificamente sobre as implicações cruzadas dos dois processos. Mas a coincidência de calendário, a privatização da TAP a fechar-se precisamente quando Angola avança com a sua própria privatização da TAAG, tendo a Lufthansa como denominador comum em ambos os dossiers, é, no mínimo, um desenvolvimento a observar de perto por quem acompanha o sector da aviação e do turismo entre os dois países.
Factos rápidos
A Lufthansa venceu a privatização parcial da TAP, ficando com 44,9% do capital, por uma avaliação total de 2.552 milhões de euros
A decisão foi anunciada pelo Governo português a 14 de Outubro de 2026, batendo a proposta da Air France-KLM em 16%
Falta aprovação do Conselho de Ministros e da Comissão Europeia; a privatização só deve concluir-se em 2028
A TAP opera, desde Dezembro de 2025, a partir do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, com um voo diário Lisboa-Luanda e um semanal Porto-Luanda
A Lufthansa assinou, em Novembro de 2025, um contrato de serviços com Angola para apoiar a reestruturação da TAAG, cobrindo governação, operações, manutenção e rotas
Angola confirmou, por decreto presidencial de Fevereiro de 2026, a intenção de privatizar parcialmente a TAAG ainda em 2026
O ministro dos Transportes angolano já admitiu a Lufthansa como “parceiro desejável” numa futura abertura de capital da TAAG
Redacção: ola@targeting.ao






