A estreia do primeiro modelo totalmente eléctrico da Ferrari está longe de gerar consenso no mercado internacional. O “Luce”, apresentado como a nova aposta da marca na transição energética, foi recebido com reservas por analistas, investidores e figuras históricas ligadas à fabricante italiana.
Revelado em Roma, o novo modelo assinala uma viragem estrutural na estratégia da Ferrari. Entrada mais directa no segmento da mobilidade eléctrica. Trata-se de um veículo com configuração inédita no portefólio da marca, com quatro portas e cinco lugares, com linguagem orientada para o gran turismo, em contraste com a tradição dos superdesportivos de dois lugares e vocação essencialmente desportiva.
No plano técnico, o Luce apresenta quatro motores eléctricos independentes, potência acima dos 1.000 cavalos e autonomia superior a 530 quilómetros. A arquitectura de 800 volts garante, segundo a marca, maior eficiência energética, melhores níveis de desempenho e tempos de carregamento mais reduzidos. O modelo posiciona-se no topo do segmento dos eléctricos de luxo.
A Ferrari enquadra o lançamento na estratégia “multi-energy”, definida em 2022, que prevê a coexistência entre motores de combustão, híbridos e eléctricos. A marca reforça que não se trata de substituição imediata do motor térmico, mas de transição gradual, preservação da identidade histórica, resposta às exigências ambientais e às dinâmicas do mercado global.
Apesar desta leitura estratégica, a resposta dos mercados foi negativa. Após a apresentação, as acções da Ferrari registaram queda superior a 8% na Bolsa de Milão, com reflexos também na cotação em Nova Iorque. Analistas interpretam o movimento como sinal de cautela dos investidores face ao posicionamento da marca no segmento eléctrico de luxo, num contexto de abrandamento da procura global por este tipo de veículos.
As críticas não se limitaram ao mercado financeiro. O design do modelo gerou debate, com vários observadores a apontarem afastamento significativo da identidade visual tradicional da Ferrari.
O antigo presidente da Ferrari, Luca Cordero di Montezemolo, classificou o modelo como uma “ruptura com a história” da marca italiana. Já o vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, levantou dúvidas sobre o alinhamento do veículo com o legado de Enzo Ferrari.
O Luce deverá chegar ao mercado no final de 2026, com preço estimado em cerca de 550 mil euros.
Redacção: ola@targeting.ao


