Publicidade

A conveniência em África não é “Fast Delivery”

Targeting
Por Targeting
8 minutos de leitura
Tamanho da Fonte

Em África, a conveniência não começa na logística. Começa no acesso ao poder de compra.

Durante anos, o mundo da tecnologia tentou convencer-nos de que conveniência significa velocidade. Receber uma refeição em quinze minutos; receber uma encomenda no mesmo dia; receber qualquer produto em poucas horas.

A ideia tornou-se tão dominante que muitas startups passaram a acreditar que a única forma de inovar seria reduzir continuamente o tempo entre o clique e a entrega.

Mas existe um problema nessa visão: ela foi construída para uma realidade específica. Foi construída para mercados onde o acesso ao poder de compra já estava resolvido: para cidades onde a maioria das famílias tem acesso regular ao crédito, onde os sistemas bancários funcionam de forma eficiente e onde a estabilidade financeira permite planear o consumo com relativa tranquilidade, faz sentido competir pela velocidade.

Quando todas as outras barreiras já foram eliminadas, a rapidez transforma-se numa vantagem competitiva, mas África apresenta uma realidade diferente.

Em grande parte do continente, a principal preocupação das famílias não é quanto tempo demora uma entrega. A principal preocupação é garantir que existe capacidade financeira para adquirir os bens de que precisam.

A diferença parece subtil, mas muda completamente a forma como desenhamos produtos, serviços e modelos de negócio.

Quando observamos uma família africana média, percebemos que a maior parte das suas compras é previsível. Arroz, massa, óleo alimentar, açúcar, leite, sabão e outros produtos essenciais entram regularmente no orçamento familiar.

As famílias sabem o que vão consumir. Sabem quando vão consumir e, muitas vezes até sabem quanto vão consumir. O desafio raramente é descobrir o que comprar. O desafio é conseguir comprar.

Durante décadas construímos sistemas de distribuição focados na movimentação dos produtos. Investimos em armazéns, frotas, centros logísticos, aplicações móveis e sistemas de entrega.

Poucos se concentraram na movimentação do poder de compra. Poucos se perguntaram porque razão uma família deixa de consumir determinados produtos a meio do mês. Poucos se perguntaram porque razão milhares de pessoas adiam compras essenciais mesmo sabendo exactamente aquilo de que necessitam.

A resposta raramente está na logística. Está na capacidade financeira, e é precisamente aqui que surge uma oportunidade para os empreendedores africanos.

Se uma família sabe aquilo que vai precisar no próximo mês, se o seu rendimento é relativamente previsível e se o consumo é recorrente, então talvez a verdadeira inovação não esteja na velocidade da entrega.

Talvez esteja na capacidade de garantir acesso, talvez esteja em permitir que as pessoas possam adquirir hoje aquilo de que precisam e pagar quando tiverem capacidade para o fazer, talvez esteja em criar mecanismos de compra colectiva que aumentem o poder de negociação, ou, talvez esteja em transformar o conhecimento sobre os hábitos de consumo em instrumentos que facilitem o acesso aos bens essenciais.

O erro de copiar outros mercados

Um dos maiores erros cometidos por muitas startups africanas é assumir que os problemas dos consumidores africanos são iguais aos problemas dos consumidores europeus, americanos ou asiáticos. Não são. As restrições são diferentes, as prioridades são diferentes, os comportamentos são diferentes.

Quando uma empresa copia um modelo estrangeiro sem compreender o contexto local, acaba por optimizar aspectos que têm pouco impacto na vida do cliente. Pode reduzir o tempo de entrega de três dias para três horas, mas se o cliente continua sem capacidade para pagar, a inovação não resolve o problema principal.

O mercado africano exige uma compreensão mais profunda da realidade económica das famílias. Exige produtos desenhados para aumentar o acesso e não apenas para aumentar a velocidade.

O verdadeiro significado de conveniência

Talvez tenhamos definido conveniência da forma errada. Durante muito tempo associámos conveniência a rapidez, mas para milhões de africanos, conveniência significa algo diferente. Conveniência é saber que os produtos essenciais estarão disponíveis quando forem necessários.

Conveniência é poder comprar antes do salário cair.

Conveniência é não precisar de fazer uma viagem longa para adquirir produtos básicos.

Conveniência é poder planear o consumo.

Conveniência é ter previsibilidade.

Conveniência é reduzir a ansiedade associada ao acesso aos bens essenciais.

Quando observamos a realidade através desta lente, percebemos que as maiores oportunidades empresariais não estão necessariamente na logística. Estão na construção de mecanismos que aumentem o poder de compra e reduzam a vulnerabilidade económica das famílias.

A próxima geração de empresas africanas

É por isso que acredito que a próxima geração de empresas africanas não será definida pela rapidez com que entrega produtos. Será definida pela capacidade de reduzir barreiras ao consumo.

As empresas que ajudarem as pessoas a comprar melhor vencerão empresas que apenas entregam mais rápido. As empresas que criarem modelos de pagamento adaptados à realidade local vencerão empresas que apenas importarem soluções concebidas para outros mercados. As empresas que compreenderem o comportamento económico das famílias africanas vencerão empresas que continuarem a copiar modelos construídos para contextos completamente diferentes.

Muitas das startups que fracassaram em África não falharam por falta de tecnologia. Não falharam por falta de talento. Não falharam por falta de investimento. Falharam porque resolveram o problema errado.

Enquanto algumas competiam pela entrega em minutos, milhões de famílias continuavam a perguntar algo muito mais simples: Como vou conseguir comprar aquilo de que preciso?

Essa pergunta continua sem resposta para uma parte significativa da população africana. E responder a essa pergunta pode valer muito mais do que qualquer frota de motorizadas, qualquer centro logístico automatizado ou qualquer promessa de entrega ultrarrápida.

Conclusão

Em África a conveniência não começa na logística. A conveniência começa no acesso.

Começa na capacidade de transformar rendimento em consumo. Começa na possibilidade de garantir dignidade às famílias através de modelos mais inteligentes de pagamento, financiamento e planeamento.

Talvez o futuro do comércio electrónico africano não esteja em fazer chegar os produtos mais depressa. Talvez esteja em garantir que mais pessoas conseguem comprá-los. E quem compreender isso estará a construir empresas para o mercado que existe, e não para o mercado que gostaria que existisse.

Augusto Firmino

Empreendedor
Especialista em Produtos Digitais e Inovação

Compartilhe este artigo

Publicidade

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *