Quando uma empresa opera a infra-estrutura crítica que sustenta os pagamentos de um país inteiro, mudar de identidade não é um exercício estético, é uma declaração sobre o que se é e sobre o que se quer deixar de ser. Foi esse o desafio que Eduardo Bettencourt, Administrador Executivo da EMIS, teve pela frente ao conduzir o reposicionamento da marca da empresa, coincidindo com a celebração dos seus 25 anos de existência.
Nesta conversa com o TARGETING, o Administrador explica o que motivou a mudança, detalha os números que justificam a confiança da EMIS no futuro, e assume os desafios que ainda restam por resolver num país onde mais de 60% da população adulta ainda não usa pagamentos electrónicos de forma regular.
O catalisador foi o aniversário, mas a motivação é o mercado
Para Eduardo Bettencourt, reduzir o rebranding da EMIS a uma celebração de aniversário seria uma leitura incompleta. “Este processo de reposicionamento e, consequente rebranding, nasceu de uma necessidade de reflexão por parte da Comissão Executiva, em estrita coordenação com o Conselho de Administração. O marco dos nossos 25 anos foi o catalisador ideal, mas a verdadeira motivação ultrapassa a celebração do aniversário e prende-se, sobretudo, com o momento que o mercado atravessa”, explica.
Segundo o administrador, o Sistema de Pagamentos de Angola (SPA) está numa fase de transformação acelerada, com a emergência de novos perfis de participantes no ecossistema, “que vão muito além da banca tradicional”, e com mudanças profundas na forma como os utilizadores pagam. “Esta nova dinâmica obrigou-nos a parar e reflectir para percebermos se o nosso posicionamento actual continuava a ser o mais adequado e, fundamentalmente, se a nossa proposta de valor era bem compreendida por todos os players e pelos nossos principais stakeholders”, sustenta.
Há ainda, sublinha, um alinhamento temporal estratégico: a reflexão decorreu no último ano do mandato da actual Comissão Executiva, precisamente quando arrancou o planeamento estratégico para o triénio 2027-2029. “Isso faz deste o momento perfeito para alinhar a nossa identidade visual e corporativa com a visão de futuro da EMIS”, remata.

Uma marca “datada”, revelada por uma fase de imersão
Antes de qualquer decisão de design, a EMIS conduziu aquilo que Eduardo Bettencourt descreve como uma fase de “imersão”, um conjunto de dinâmicas e entrevistas junto de vários stakeholders, para perceber como a empresa era percepcionada, em contraste com a
forma como se via a si própria. “Verificou-se de forma muito clara que a marca e identidade anterior se encontrava datada, demasiado associada ao cartão físico e pouco aberta ao futuro, nomeadamente às novas formas de pagamento e aos stakeholders actuais. Também ficou claro que a forma de comunicar não se alinhava com aquilo que era a nossa intenção e visão”, reconhece.
Depois dessa reflexão, a empresa concluiu que a nova identidade deveria assumir-se como “a resposta visual e conceptual à transformação que o ecossistema de pagamentos está a atravessar e continuará a atravessar”. Para o próximo ciclo estratégico, o objectivo é reforçar o papel agregador e mediador da EMIS no ecossistema, reforçar o foco em inovação e resiliência, e deixar claro que a empresa opera, nas suas palavras, “pelo futuro dos pagamentos”, frase que passou, aliás, a assinatura oficial da marca.
Cinco princípios para uma só mensagem
A nova identidade visual e corporativa da EMIS foi pensada para transmitir, segundo Eduardo Bettencourt, “um compromisso inabalável com a modernização e a abertura do ecossistema de pagamentos”. A mensagem central, resume, é de antecipação e liderança:
“Queremos que os parceiros e clientes percebam de forma clara que a EMIS deixou de ser apenas a entidade tradicionalmente associada ao MULTICAIXA e ao cartão, assumindo-se, agora como uma instituição perfeitamente aberta a novas formas de pagamento e aos novos stakeholders do mercado”. Eduardo Bettencourt, Administrador Executivo da EMIS.

Essa mensagem estrutura-se, explica, em cinco princípios fundamentais. O primeiro, “Juntamos e avançamos”, que posiciona a EMIS como uma base de confiança comum, com papel federador na criação de consensos e soluções partilhadas que, segundo Bettencourt, “nenhum stakeholder conseguiria construir sozinho”. O segundo, “Servimos todos, por igual”: reforça a neutralidade da empresa e a garantia de actuação transparente em prol do interesse colectivo do ecossistema de pagamentos.
O terceiro, “Garantimos que o sistema não para”: reafirmamos a nossa responsabilidade no país, conferindo à instituição o papel de desenhar infra-estruturas invisíveis, mas fiáveis, porque sabe-se que, quando os pagamentos falham, é a própria economia, e o país, que pára.
O quarto princípio, “Preparamos o futuro”: garante ao mercado que a empresa vai “recuperar o seu ADN de start-up”, operando com agilidade para desenvolver soluções e capacidade para antecipar avanços tecnlógicos. Por fim, “Somos angolanos, e por Angola”: reforça a proximidade da EMIS com o contexto local: “Por mais inovadora que seja a tecnologia, o nosso foco absoluto será sempre construir soluções com profundo conhecimento do mercado local, visando uma economia mais inclusiva e gerando um impacto real no dia-a-dia da população angolana”, afirma.
Da Rede MULTICAIXA ao KWiK: 25 anos de inclusão financeira
Questionado sobre o papel histórico da empresa, Eduardo Bettencourt remete para a criação da Rede MULTICAIXA, que, nas suas palavras, “estabeleceu uma infra-estrutura interoperável de acesso aos serviços financeiros no país”. Segundo o administrador, esse acesso simplificado a pagamentos, transferências e cobranças “contribuiu para aumentar a utilização dos meios electrónicos de pagamento e criou uma relação mais próxima entre os cidadãos e o sistema financeiro”.
Mais recentemente, esse compromisso foi ampliado com o lançamento do KWiK, um Sistema de Transferências Instantâneas e interoperabilidade móvel desenhado, segundo Bettencourt, “para reduzir as barreiras de entrada e facilitar a integração do sector informal no ecossistema financeiro, permitindo novos tipos de participantes não bancários”. Para garantir que essa adopção tecnológica ocorra com segurança e conhecimento, a EMIS impulsionou ainda o programa de literacia financeira e digital “Cidadão Digital”, que o administrador descreve como fundamental para “transformar o acesso à tecnologia em verdadeira inclusão e confiança”.
Desde a fundação em 2001, recorda, a EMIS foi responsável por conceber, desenvolver e gerir a infra-estrutura nacional de pagamentos electrónicos, começando pela introdução da interoperabilidade em 2002, com o lançamento da Rede MULTICAIXA, que permitiu que cartões de qualquer instituição fossem utilizados em toda a rede. Seguiram-se o Sistema de Transferências a Crédito, o Sistema de Compensação de Cheques, o Sistema de Débitos Directos e, mais recentemente, o Sistema de Transferências Instantâneas, bem como soluções inovadoras como o MULTICAIXA Express, a Gateway de Pagamentos Online (GPO) e os pagamentos por código QR.
Os números por trás do crescimento
Em termos de volume, Eduardo Bettencourt descreve uma trajectória de crescimento exponencial, sempre a dois dígitos percentuais ano após ano. Em 2025, a Rede MULTICAIXA processou, globalmente, 3,47 mil milhões de transacções, movimentando mais de 45 biliões de kwanzas. Somando todos os sistemas operados pela EMIS, o valor transaccionado aproximou-se dos 70 biliões de kwanzas.
Dentro deste ecossistema, o canal MULTICAIXA Express destacou-se ao ultrapassar 2,1 mil milhões de operações anuais, processando cerca de 20 biliões de kwanzas. Os canais mais tradicionais mantiveram, ainda assim, um peso expressivo: os Terminais de Pagamento Automático (TPA) realizaram mais de 713 milhões de transacções (cerca de 10 biliões de kwanzas movimentados), e os Caixas Automáticos (ATM) processaram mais de 543 milhões de operações, movimentando cerca de 14 biliões de kwanzas. Para 2026, Bettencourt confirma a tendência de crescimento, prevendo uma expansão transaccional superior a 30%.
“Ao longo dos seus 25 anos, a EMIS desempenhou um papel determinante na inclusão financeira através da criação da Rede MULTICAIXA, que estabeleceu uma infra-estrutura interoperável de acesso aos serviços financeiros no país. Este acesso simplificado a pagamentos, transferências, cobranças e outros serviços financeiros contribuiu para aumentar a utilização dos meios electrónicos de pagamento e criou uma relação mais próxima entre os cidadãos e o sistema financeiro, promovendo uma maior formalização das transacções e uma participação mais ampla da população na actividade económica”, Eduardo Bettencourt, Administrador Executivo da EMIS.

A digitalização deixou de ser tendência para ser estrutura
Olhando para o processo de digitalização do sistema financeiro angolano nos últimos cinco anos, Eduardo Bettencourt é directo: deixou de ser “um simples aumento na utilização de meios electrónicos” para se tornar “o suporte estrutural de uma parcela cada vez mais relevante da actividade económica nacional”. Canais puramente digitais como o MULTICAIXA Express, a Gateway de Pagamentos Online e o KWiK, são hoje, segundo o administrador, os verdadeiros impulsionadores da evolução do sistema financeiro, concentrando uma fatia crescente do volume de operações e do valor movimentado no país.
Essa digitalização, acrescenta, revela uma mudança profunda de hábitos da população: “A preferência pelas soluções móveis está a acelerar a circulação de valor na economia e a reforçar substancialmente a conveniência diária para cidadãos e empresas”.
O peso do digital é, aliás, já maioritário: segundo Bettencourt, o MULTICAIXA Express representa, por si só, perto de 70% das transacções mensais da Rede MULTICAIXA. “Se somarmos as transferências KWiK e os pagamentos online e com código QR, então podemos afirmar que perto de 80% das transacções são efectuadas de forma digital”, revela.
Soluções que mudaram o dia-a-dia dos angolanos
Entre as soluções com maior impacto prático, Eduardo Bettencourt destaca a própria Rede MULTICAIXA (ATM e TPA), que “criou uma infra-estrutura partilhada garantindo acesso universal a levantamentos e pagamentos no comércio, independentemente do banco do utilizador”. O MULTICAIXA Express, por seu lado, “transformou a experiência diária ao colocar a mobilidade no centro da conveniência”, permitindo transferências, pagamentos e levantamentos sem cartão, através do telemóvel.
A Gateway de Pagamentos Online e o código QR simplificaram, segundo o administrador, a integração digital dos comerciantes, alavancando o comércio electrónico nacional, enquanto o Sistema de Transferências Instantâneas e o KWiK trouxeram “a rapidez da execução em tempo real apenas com a associação de um número de telemóvel”. Mais recentemente, a EMIS lançou ainda novos terminais de pagamento de última geração, com suporte ao sistema operativo Android, e o contactless MULTICAIXA, que, nas palavras de Bettencourt, traz “maior eficiência a todo o ecossistema, garantindo menos desgaste físico dos cartões, mantendo toda a segurança e modernidade”.
Um ecossistema que passou de oito a vinte e cinco participantes
O ecossistema ligado à plataforma da EMIS integra actualmente 20 bancos em actividade e 5 prestadores de serviços de pagamento não bancários, uma expansão significativa face ao início das operações em 2001, quando a empresa contava apenas com oito bancos fundadores. Ao longo deste percurso, o ecossistema alargou-se também à esfera internacional, integrando os principais circuitos globais de pagamento e permitindo a aceitação das marcas VISA, Mastercard, UnionPay e American Express em toda a rede nacional.
Milhões de utilizadores no bolso
O sucesso da estratégia de digitalização inclusiva é visível na base de utilizadores. Segundo Eduardo Bettencourt, o canal MULTICAIXA Express já ultrapassa os 3,5 milhões de utilizadores registados e perto de 5 milhões de cartões, enquanto o KWiK conta com perto de 15 milhões de contas registadas, operadas directamente pelo telemóvel.
“Números que acreditamos serem extraordinários. No entanto, ainda há um grande caminho a percorrer, e pretendemos que todos os angolanos, sem excepção, usufruam das várias soluções de pagamento”, pondera o administrador.
Inteligência artificial e Open Finance: o que vem a seguir
Questionado sobre as inovações mais impactantes da história da EMIS, Eduardo Bettencourt aponta a interoperabilidade pioneira da Rede MULTICAIXA, a transição bem-sucedida para a banca móvel com o MULTICAIXA Express, e a criação do Sistema de Transferências Instantâneas com a solução KWiK. Para a próxima década, a empresa tenciona explorar o potencial dos dados e da inteligência artificial para melhorar a análise de risco, personalizar serviços e promover a inclusão do mercado informal.
A empresa planeia ainda liderar a implementação de um modelo de Open Finance para a partilha segura de dados entre instituições, e continuar a promover a desmaterialização dos meios de pagamento “em prol de experiências de transacção invisíveis e sem fricção”, como resume Bettencourt.
Para os próximos cinco anos, as metas dividem-se em dois horizontes. A curto prazo, a EMIS pretende massificar o TPA Android e o contactless MULTICAIXA, e aumentar a utilização de cartões virtuais. A longo prazo, o foco recai sobre novos modelos de negócio assentes na instantaneidade das transacções, com destaque para a massificação do KWiK e na preparação técnica e regulatória para ecossistemas de Open Finance, sempre alinhada, sublinha, com os objectivos da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira para o triénio 2025-2027.
“No próximo ciclo estratégico pretendemos, de um ponto de vista geral, reforçar o papel agregador e de mediador da EMIS no ecossistema de pagamentos, reforçar o nosso foco na inovação e o garante da resiliência e ficar claro que operamos pelo futuro dos pagamentos em Angola”, Eduardo Bettencourt, Administrador Executivo da EMIS.

O desafio que ainda persiste: a exclusão financeira
Apesar dos números de crescimento, Eduardo Bettencourt não hesita em identificar o maior desafio que o sector ainda enfrenta em Angola: “Mais de 60% da população adulta não utiliza pagamentos electrónicos de forma intensiva”, uma realidade que associa aos baixos níveis de literacia digital e financeira no país. A isto soma-se, a nível mais global, a necessidade crítica de resiliência das infra-estruturas operacionais, nas suas palavras, “um dos maiores desafios” do sector nos próximos anos, a par da adopção da inteligência artificial, do avanço do Open Finance e da contínua desmaterialização dos pagamentos.
Para responder a este panorama, a EMIS aposta num forte investimento na educação da população, através de programas como o “Cidadão Digital”, o “KWiK nos Mercados” e o “KWiK é o Futuro”, ao mesmo tempo que garante, segundo Bettencourt, “a máxima cibersegurança e resiliência do seu Centro de Operações” e desenvolve uma arquitectura tecnológica ágil, capaz de integrar as lógicas específicas da economia informal.
“Pelo futuro dos pagamentos” não é, assim, apenas a nova assinatura visual da EMIS, é, segundo o seu Administrador Executivo, a síntese de uma empresa que, aos 25 anos, decidiu deixar de se definir pelo cartão físico que a tornou conhecida, para se assumir como a infra-estrutura que vai continuar a sustentar a forma como Angola paga, transfere e transacciona nas próximas décadas.
Redacção: ola@targeting.ao






