Desemprego, um indicador imensurável em Angola

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O último dado sobre desemprego no país aponta para o ano de 2022 em que a taxa se fixou nos 29,6%, dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística. Já o Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027 aponta para os 30%.

Parecem-me números simpáticos e que não casam com a realidade que constatamos no nosso dia a dia. Como profissional da área de Recursos Humanos observo várias amostras no ciclo familiar, ex-colegas de universidade, vizinhos ou amigos que facilmente perco a conta quando conto quantos não têm um emprego por razões alheias à sua vontade. São tantas dificuldades para obter um emprego que nasceram muitos empresários por uma questão de sobrevivência.

Brinco em vários ciclos que a taxa de desemprego verdadeira em Angola deve rondar os 90% ou 80% da população, pois, pouquíssimos são os angolanos que estão inseridos no mercado de trabalho formal.

Numa nota no seu Perfil Facebook (e não no seu website), o Instituto Nacional de Estatística alegou em Maio do ano passado que, por razões técnicas, o relatório sobre o mercado de trabalho ficou interrompido. Realmente é um indicador de difícil mensuração… Não existem linhas de excel suficientes para contar este assustador número de pessoas a trabalhar no regime de salve-se quem puder que assistimos no nosso país.

Observo vários especialistas e colegas da área de carreiras no nosso mercado que ajudam a construir currículos, dão dicas sobre empregabilidade (quase todas tiradas de livros completamente descontextualizados com a realidade do país) sem efectuar uma gestão de expectativas adequada à actual realidade do mercado de trabalho.

Por mais CVs bonitos e organizados que o profissional tenha, num mercado congestionado,  sem ferramentas de incentivo às empresas para criação de novas posições e sem programas de contratação de jovens profissionais sem experiência, a probabilidade de se conseguir um emprego pela via normal (processo normal de recrutamento sem recomendação) são menores do que conseguir uma vaga por recomendação (padrinho na cozinha, tecnicamente apelidado de recomendação, mas que em Angola tem contornos diferentes). É importante sermos reais apesar de haverem alguns casos de sucesso mas não o suficiente para servirem de amostra.

“A metitrocracia ainda não é a principal maneira de se conseguir uma vaga em Angola, mas não podemos deixar de tentar concorrer ao sonho do primeiro emprego.”

A tarefa é hercúlea por conta de uma económia que está em galopante recessão. Consequentemente, há poucas empresas novas e as antigas que existem no mercado não têm mobilidade suficiente (entradas e saídas de pessoas, bem como criação de novos postos de trabalho) que lhes permita responder às necessidades do mercado, tornando quase milagroso conseguir uma vaga de emprego com celeridade. O mercado está no vermelho e não é claramente só um problema de instrução (quadros qualificados), pois, ainda que sejam poucos para dimensão e necessidades do país, já vão se formando quadros internamente que, ao não ingressarem para o mercado de trabalho e ao terem que abraçar o empreendedorismo esforçado, têm o seu percurso formativo amputado pelo meio, já que o conhecimento teórico das academias necessita de aplicação prática para ser sustentável e de valor para as empresas.

Há um distanciamento muito grande entre empresas e universidades. A fotografia não é bonita no mercado de trabalho em Angola, verificamos uma debandada de força de trabalho jovem do país por falta de oportunidades. A fuga de cérebros é alarmante!

Segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal, nos últimos cinco anos, a comunidade angolana quase duplicou. No ano passado viviam em Portugal mais de 30 mil angolanos (em 2017 eram menos de 17 mil).

Nos últimos meses, terão também aumentado as solicitações de cidadãos angolanos para entrar no Brasil. De acordo com o Consulado do Brasil em Angola, houve mais de 12 mil pedidos de visto de Outubro de 2022 a Janeiro deste ano. A vida lá fora não é um mar de rosas mas….

Recrutadores reclamam que no nosso país uma vaga divulgada para um assistente financeiro é invadida por mecânicos, cozinheiros, costureiros, estudantes de relações internacionais… Mas eu questiono: como queremos contratar com especialidade nas funções se estamos num país com candidatos desesperados pelo primeiro emprego? A frase “eu aceito qualquer coisa, só preciso de um emprego” é muito comum.

Soluções procuram-se e o desemprego, tal como a educação e a saúde, devem ser prioridades governamentais, criando políticas que obriguem o sector privado e o público a criarem vagas e a contratar recém licenciados (força de trabalho jovem), pois o mercado responde muito mal a contratação de pessoas sem experiência.

O que será do futuro de um país se não investir na juventude?

Se não surgirem oportunidades para a juventude nas empresas, quando é que novos profissionais em diversas áreas vão ganhar experiência profissional?

Ivo Guimarães

Gestor de Talento
RH Analítico e Tranformação Digital.

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9 Comentários
  • Subscrevo a 100%, como profissionais de RH temos temos de ter uma visão honesta e transparente do mercado de trabalho angolano . A realidade de facto é assustadora, mesmo para aqueles que estão empregados ou procuram empreendodorismos de “subsistencia”. É urgente encontrar soluções para a elevada taxa de desemprego que assola o nosso país.

    • Para o próximo artigo penso em elencar algumas possíveis soluções como por exemplo criar incentivos legais pelo número de contractos ou estágios remunerados para jovens entre os 18-25 anos….Podemos abordar este tema num futuro próximo 🙂

  • Primeiro artigo que leio sobre a situação da empregabilidade em Angola, que realmente me convenceu e descreveu a real situação das coisas

  • Um texto muito bem elaborado, com base na realidade do nosso país e como jovem que sou que vive na pele as dificuldades de encontrar um emprego digno muitas das vezes fui obrigado aceitar condições péssimas de trabalho só para garantir a sobrevivência. Os meus parabéns e aguardo pelo próximo artigo.

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