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Carlos Daniel: do Cazenga ao sonho de construir o primeiro unicórnio tecnológico da lusofonia africana

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Há histórias empresariais que começam numa sala de reuniões e há outras que começam numa infância marcada por livros. A de Carlos Daniel pertence claramente à segunda categoria. Criado no Cazenga, em Luanda, foi sempre o melhor aluno das escolas públicas por onde passou (Rei Mandume, São Domingos Sávio, Escola 5023), antes de se tornar o fundador de um dos ecossistemas empresariais angolanos com maiores ambições internacionais: o Grupo STATEMENT, e a sua unidade mais visível, a Mirantes Technologies, que hoje aspira a tornar-se o primeiro unicórnio tecnológico da lusofonia africana.

“Desde pequeno os meus maiores interesses foram livros, negócios e dinheiro, ou melhor, formas de o gerar”, recorda Carlos Daniel. Para o empreendedor, não existe um “dom inato” para empreender, apenas a capacidade de aprender e executar de forma contínua. Foi essa combinação entre raciocínio lógico e curiosidade empresarial, cultivada muito antes de qualquer plano de negócios, que acabaria por abrir caminho a um projecto de escala continental.

Da engenharia mecânica ao mundo dos negócios

O percurso académico de Carlos Daniel foi construído longe das ciências empresariais. Formou-se com mérito em Engenharia Mecânica pela JNTU, na Índia, reforçando essa base técnica com certificações em áreas tão diversas como negócios, matemática, HSE, design industrial, simulação e programação. Ainda assim, o interesse pelo mundo empresarial nunca desapareceu, e acabaria por se sobrepor à trajectória puramente técnica.

Foi em 2016 que surgiu a ideia de criar o Grupo STATEMENT, um projecto que levaria quatro anos a materializar-se oficialmente, em 2020. Desde então, a empresa cresceu de forma diversificada, reunindo áreas de actuação que reflectem o espírito do seu fundador, da consultoria à formação, passando pela tecnologia e pelo entretenimento.

Carlos Daniel: do Cazenga ao sonho de construir o primeiro unicórnio tecnológico da lusofonia africana

Um ecossistema com sete unidades de negócio

O Grupo STATEMENT estrutura-se hoje em torno de sete unidades que, no seu conjunto, formam um verdadeiro ecossistema empresarial: a STATEMENT Management Consulting, dedicada a consultoria de gestão e estratégia; a STATEMENT Academy, focada em formação profissional corporativa; a STATEMENT Labs, responsável pela investigação e desenvolvimento de software; a STATEMENT Information Technology, que revende soluções tecnológicas globais; a Mirantes Technologies, plataforma de carreira e recursos humanos; a Mirantes Academy, vocacionada para formação profissional online; e a MVX, dedicada à produção de conteúdos, cinema e entretenimento.

Para Carlos Daniel, esta arquitectura não é acidental, mas reflecte uma filosofia de crescimento deliberadamente lenta e testada. “O Grupo STATEMENT é o veículo da mudança. Cada iniciativa é maturada durante anos antes de se tornar uma empresa independente, capaz de gerar empregos e valor social”, explica o fundador, uma lógica de incubação interna que ajuda a explicar por que razão, entre a ideia inicial de 2016 e a constituição formal do grupo em 2020, decorreram quatro anos de preparação.

A Mirantes e a ambição de um “universo de carreira” para África

Entre todos os projectos do grupo, foi a Mirantes Technologies que se tornou a face mais visível, e a que carrega hoje a maior ambição. Criada inicialmente para responder às dificuldades das empresas angolanas em gerir capital humano, a plataforma evoluiu rapidamente para um projecto mais vasto: tornar-se aquilo que a própria empresa descreve como um “universo de carreira” para milhões de africanos.

A génese do produto nasceu de um problema concreto e recorrente: muitas empresas perdiam tempo excessivo em tarefas administrativas repetitivas (processar salários, marcar férias, gerir ausências), em vez de dedicarem esse tempo ao desenvolvimento das suas pessoas. A Mirantes nasceu para automatizar esses processos, mas rapidamente alargou o seu âmbito, passando a oferecer três frentes complementares: soluções empresariais que vão do recrutamento à gestão completa de recursos humanos; uma versão gratuita para profissionais individuais, com opções premium; e um pacote dedicado a criadores de conteúdos, que lhes permite monetizar formações e infoprodutos através da plataforma.

Os números de crescimento justificam a ambição. Com utilizadores em 43 países, escritórios em Luanda e no Dubai, e planos de expansão já traçados para a Europa e as Américas, a Mirantes posiciona-se hoje como candidata a tornar-se um unicórnio africano, categoria reservada a empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares, e que continua a contar poucos exemplos vindos de África, e menos ainda da lusofonia africana.

Em 2024, a Mirantes Technologies tornou-se na primeira empresa angolana a participar nos Global Startup Awards, a maior competição de Startups do Mundo, na sua 11ª edição, onde Carlos Daniel venceu na categoria de Founder of the Year para a África Austral. Em 2026 a startup volta a ser nomeada a concorrer na 12ª edição da competição.

Os sacrifícios de construir uma startup em Angola

O caminho até aqui está longe de ter sido linear. Criar uma startup tecnológica em Angola significou, segundo Carlos Daniel, enfrentar simultaneamente limitações de recursos, falta de conexões relevantes e um mercado ainda pouco estruturado para apoiar a inovação. “É a fórmula perfeita para o fracasso”, admite o empreendedor, com uma franqueza pouco comum em discursos empresariais, mas foi precisamente nesse conjunto de obstáculos que diz ter encontrado a sua maior resiliência.

O preço pessoal desse percurso não foi pequeno. Carlos Daniel abdicou de oportunidades que lhe poderiam ter garantido riqueza imediata, enfrentou incompreensão à sua volta e chegou mesmo a perder amizades ao longo do processo. Ainda assim, olha para essas perdas sem ressentimento: “Sou grato até pelas perdas. Elas fizeram de mim o que sou hoje”.

Esse mesmo sentido de propósito de longo prazo esteve por trás de uma das decisões mais reveladoras da trajectória do fundador: a recusa de uma proposta de compra da Mirantes avaliada em 10 milhões de dólares. “A Mirantes tem um propósito específico. Uma venda no momento errado poderia destruir o trabalho de uma vida. Não estamos contra a venda, mas ela só fará sentido quando for no tempo e nas condições certas”, justifica.

Um modelo de negócio ao serviço de um propósito

Do ponto de vista financeiro, a Mirantes sustenta-se através de publicidade paga, subscrições e serviços empresariais desenhados à medida de cada cliente. Mas, para Carlos Daniel, reduzir o sucesso da plataforma a métricas de utilizadores ou facturação seria uma leitura incompleta do que a empresa se propõe fazer. “Sucesso é quando a plataforma cumpre o seu propósito para cada utilizador. Para quem procura emprego, é encontrar trabalho de forma rápida e conveniente. Para quem cria conteúdos, é conseguir monetizá-los. É isso que realmente importa”, resume.

Uma ambição que ultrapassa fronteiras

Guiado por aquilo que descreve como um “optimismo racional”, inspirado no conceito popularizado pelo cientista e autor britânico Matt Ridley, Carlos Daniel acredita que a Mirantes poderá juntar-se, num futuro próximo, à ainda restrita lista de unicórnios africanos. A internacionalização da plataforma já está em curso e assume-se como prioridade explícita da estratégia do grupo.

A escala da ambição, aliás, nunca esteve limitada a Angola. “O nosso propósito nunca foi apenas Angola, mas os 1,2 mil milhões de africanos que enfrentam os mesmos desafios. Queremos provar que é possível, mesmo em condições adversas, criar um gigante tecnológico na lusofonia africana”, afirma o fundador.

Obstinado e pragmático, rodeado de uma equipa que descreve como igualmente determinada, Carlos Daniel aposta na paciência e na disciplina como os verdadeiros factores decisivos para transformar ideias em negócios sustentáveis, a mesma lógica de maturação lenta que já geriu a construção de todo o Grupo STATEMENT. Do Cazenga para o mundo, a ambição do empreendedor angolano é clara: mostrar que a inovação africana tem rosto, nome e propósito.

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