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Entender o jogo: O Peão (parte 2)

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Por Targeting
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O peão é, ao mesmo tempo, a peça mais comum, mais subestimada… e potencialmente mais estratégica. Compreender o papel do peão é, na prática, compreender como a maioria dos profissionais vive, cresce, ou fica estagnado dentro das organizações.

1. O Peão é a base do jogo

Os peões representam as bandas técnicas e operacionais, na sua maioria são quadros juniores e plenos. Sendo eles os responsáveis pela execução do trabalho diário, sustento da operação e são principal garante na efectivação da estratégia organizacional.

Sem peões, não há jogo. Mas, paradoxalmente, são também os mais expostos e substituíveis. O peão move-se devagar, passo a passo. Não tem a liberdade de uma Rainha, nem a versatilidade de Cavalo e muito menos os movimentos de um bispo ou torre.

No mundo corporativo, isso traduz-se em progressão gradual, dependência de oportunidades e necessidade de provar valor continuamente.

Em Angola, isso é ainda mais evidente: promoções podem ser menos frequentes; o reconhecimento nem sempre é imediato e o avanço depende tanto de performance quanto de contexto.

2. O Peão vive entre dois riscos

a) Invisibilidade

  • Trabalhar muito, mas não ser visto:
  • Entregar resultados sem visibilidade;
  • Não comunicar conquistas;
  • Ser apenas “mais um”.

Resultado: estagnação.

b) Exposição Prematura

  • Querer “dar saltos” sem entender o jogo:
  • Confrontar hierarquias de forma direta;
  • Ignorar dinâmicas de poder;
  • Avançar sem alinhamento.

Resultado: bloqueio ou exclusão.

3. O Peão inteligente joga diferente

Nem todos os peões são iguais. Os que evoluem têm comportamentos distintos:

  • Sabem ler o tabuleiro – perceber quem decide, quem influencia e onde estão as oportunidades.
  • Constroem consistência – não dependem de “momentos brilhantes”, mas de entregas contínuas, fiabilidade e disciplina.
  • Tornam-se relevantes – encontram formas de resolver problemas reais, ajudar directamente líderes e criar valor visível.
  • Investem em relações – confiança abre portas, proximidade gera oportunidades e boa reputação protege.

4. O momento da promoção: a travessia do tabuleiro

No xadrez, o peão só se transforma quando chega ao fim do tabuleiro. Na vida corporativa, essa “travessia” representa tempo, experiência, resiliência e estratégia acumulada.

Entretanto, há um detalhe importante: nem todo peão que trabalha muito chega ao outro lado. Chegam aqueles que avançam com intenção. Diferente de outras peças, o valor do peão depende muito da sua posição.

No ambiente empresarial:

  • Estar no projecto certo pode acelerar a carreira;
  • Trabalhar com o líder certo pode abrir portas;
  • Estar visível no momento certo pode mudar tudo.

Por outras palavras:

Não é só sobre o que você faz, é sobre onde e com quem você faz.

5. O destino do Peão: 3 caminhos

Na prática, o peão corporativo tende a seguir um destes caminhos:

a) Estagnação

  • Cumpre funções;
  • Recebe salário;
  • Mas não evolui.

b) Promoção estratégica

  • Cresce gradualmente;
  • Torna-se especialista ou líder;
  • Pode chegar à “Rainha”.

c) Re-invenção

  • Sai da estrutura tradicional;
  • Empreende ou muda de sistema;
  • Cria o seu próprio “tabuleiro”.

O peão pode parecer limitado, mas carrega uma verdade poderosa: é a única peça que começa fraca… e pode tornar-se decisiva.

No nosso contexto, isso exige mais do que trabalho duro. Exige leitura de contexto, inteligência relacional e paciência estratégica.

Porque, no final, o jogo não é vencido apenas pelas peças mais fortes —
mas por aquelas que sabem quando, como e por que avançar.

O “Rei” (dono da empresa), raramente avalia o peão apenas pela sua competência técnica isolada. Ele observa, acima de tudo, confiança, alinhamento e previsibilidade. Um peão valioso é aquele que executa bem, mas também aquele que não cria ruído, que respeita a hierarquia, que demonstra lealdade e que resolve problemas sem gerar novos. Mais do que talento bruto, o Rei tende a valorizar quem facilita o funcionamento do sistema e reduz riscos — alguém em quem se pode confiar mesmo sem supervisão constante.

Ao mesmo tempo, o Rei presta atenção à utilidade estratégica do peão: quem entrega resultados visíveis, quem agrega valor directo ao negócio e, sobretudo, quem é referenciado positivamente pelas peças intermediárias (chefias e diretores). Num ambiente de poder concentrado, o peão dificilmente é avaliado directamente com frequência; a sua reputação chega ao topo por meio de perceções acumuladas. Por isso, mais do que “ser bom”, o que pesa é ser percebido como confiável, útil e alinhado com os interesses do topo.

Porém, no xadrez da vida corporativa, um peão pode atravessar todo o tabuleiro, superar obstáculos, demonstrar consistência e, no final, ser promovido a Rainha — a peça mais poderosa em termos de acção. Mas há uma regra imutável: nunca se torna Rei…

Luís Joaquim

Especialista em Gestão e
Desenvolvimento Humano

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