A indústria global de media entra em 2026 sob forte pressão de reconfiguração estrutural, impulsionada pela consolidação da inteligência artificial (IA) e pela previsão de uma redução significativa do tráfego digital historicamente gerado por motores de busca e plataformas sociais. Esta é a principal conclusão do mais recente relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism, que recolheu contributos de 280 líderes do sector da comunicação em 51 países.
De acordo com o estudo, apenas 38% dos editores e chief executive officers (CEOs) manifestam confiança no futuro imediato do jornalismo, um recuo expressivo face a anos anteriores, explicado pelo contexto de instabilidade económica, pressão sobre receitas publicitárias e aceleração das disrupções tecnológicas.
Para muitos decisores do sector, a chamada “era do tráfego”, período em que audiência, visibilidade e receitas dependiam largamente de cliques oriundos de pesquisas online e redes sociais, aproxima-se do seu esgotamento. A crescente adopção de ferramentas de pesquisa baseadas em IA, com respostas directas, resumos automáticos e chatbots conversacionais, está a reduzir de forma acentuada os acessos direccionados para os sites noticiosos. As projecções apontam para uma quebra acumulada de até 43% no tráfego proveniente dos motores de busca nos próximos três anos, cenário que ameaça a sustentabilidade de modelos de negócio excessivamente dependentes da distribuição digital tradicional.
Esta mudança estrutural altera também a forma como o jornalismo é consumido, passando a ser mediado por interfaces inteligentes, assistentes digitais e agregadores automatizados. Embora estes formatos aumentem a conveniência para o utilizador final, levantam preocupações relevantes quanto à visibilidade das marcas editoriais, à rastreabilidade das fontes e ao controlo editorial da informação.
Executivos do sector alertam que a perda de tráfego não se resume a indicadores quantitativos. Está igualmente em causa a fragilização da relação directa com as audiências, uma vez que muitos sistemas de IA utilizam conteúdos jornalísticos como base informativa sem assegurar remuneração, crédito editorial ou retorno económico para os produtores originais.
Perante este contexto, os grupos de media planeiam reforçar o jornalismo de valor acrescentado, privilegiando investigações aprofundadas, reportagens no terreno, análise contextual e narrativas humanas, géneros editoriais considerados menos vulneráveis à automatização e à simples sumarização algorítmica.
Os dados do relatório evidenciam ainda uma reorientação dos investimentos editoriais, com redução progressiva de conteúdos utilitários, notícias genéricas e peças perenes, em favor de formatos audiovisuais, nomeadamente vídeo, áudio e podcasts, bem como produtos editoriais que promovam maior envolvimento e fidelização do público.
Em paralelo, apesar das reservas quanto à fiabilidade e ética do conteúdo gerado por IA, um número crescente de redacções está a integrar estas tecnologias para automatização de tarefas operacionais, como transcrição, indexação e classificação de textos, libertando recursos para actividades editoriais de maior valor estratégico.
Outra tendência relevante destacada pelo relatório é a aproximação entre o jornalismo tradicional e a economia dos criadores de conteúdo. Muitos líderes antecipam que os profissionais terão de assumir funções híbridas, conciliando práticas jornalísticas com presença activa em plataformas como YouTube, TikTok e newsletters próprias, como forma de construir audiências directas, reforçar a notoriedade individual e diversificar fontes de receita.
Neste novo enquadramento, plataformas de vídeo, soluções baseadas em IA e redes de elevado alcance orgânico surgem como prioridades estratégicas de investimento para 2026, enquanto canais como X e os motores de pesquisa tradicionais perdem relevância nas estratégias de distribuição editorial.
Redacção: ola@targeting.ao


