Com uma carreira desenvolvida entre a Europa e Angola e marcada pela gestão estratégica de marcas, Eufrânio Júlio lidera actualmente a Direcção de Marketing, Comunicação e Imagem da A Mundial Seguros. Em entrevista concedida em exclusivo ao TARGETING, o responsável revisita o seu percurso profissional, analisa os desafios do marketing no sector segurador e partilha a visão estratégica que orienta o posicionamento da companhia num momento em que a seguradora assinala duas décadas de actividade no mercado angolano.
A trajectória de Eufrânio Júlio começou fora do país. Passou cerca de duas décadas na Holanda, período durante o qual consolidou a sua formação académica e iniciou o percurso profissional. “Vivi cerca de 20 anos na Holanda, onde me formei em Marketing e Comunicação e posteriormente concluí uma segunda licenciatura em Gestão Empresarial”, refere. Durante esse período foi igualmente contemplado com uma bolsa da União Europeia, através do Instituto INTENT, em Haia, que lhe permitiu frequentar durante um ano um MBA em Doing Business. “Essa experiência proporcionou-me uma visão internacional dos mercados e permitiu-me compreender diferentes realidades económicas, incluindo o mercado angolano e o espaço Benelux”, lembra.
Ainda na Europa, desenvolveu actividade em diversas organizações ligadas ao retalho e à comunicação. Passou por empresas como a Sprit e a Mexx, onde desempenhou funções como Marketing Manager. Trabalhou igualmente no Grupo Index, grupo espanhol que detém marcas internacionais como a Zara. Nesta organização integrou inicialmente a área de marketing e, posteriormente, assumiu responsabilidades na gestão de Customer Service, coordenando o Contact Center e a operação de cerca de dez lojas em Amesterdão. Em paralelo, colaborou com agências de marketing e comunicação, aprofundando competências em estratégia de marca, comunicação integrada e liderança de equipas.
O regresso a Angola ocorreu em 2013, quando integrou a cadeia de retalho Maxi como director adjunto de marketing. Posteriormente integrou o Grupo Refriango como responsável de comunicação, participando em projectos de reposicionamento de marcas e no lançamento de novos produtos no mercado angolano. Entre as iniciativas em que esteve envolvido destacam-se projectos como Tigra FAU Challenge, Tigra Beats, Blue DJ Battle, Pura All Star Game, Blue FM, Gira Tigra e a plataforma institucional “Refriango Dá Vida ao Futuro”.
Mais tarde integrou o Grupo SODIBA, inicialmente como gestor de parcerias estratégicas e posteriormente como director de marketing e comunicação. Durante esse período coordenou diversas iniciativas de activação e valorização de marca, entre as quais Bar Luandina, Momentos da Nossa Vida, Placa do Naná, Meu Negócio, A Nossa Viagem, A Nossa Kizomba e O Puro Wuí da Nguimbi.
Passou ainda pela Candy Factory, onde trabalhou a marca angolana de doces OKO, e posteriormente integrou a Valinho, participando no processo de reposicionamento da marca no mercado. Em paralelo com a actividade empresarial, foi também consultor do Secretário de Estado para a Comunicação Social e Marketing, colaborando em iniciativas estratégicas de comunicação institucional.
Em 2023, juntamente com um parceiro, fundou o clube de futebol Luanda City, assumindo a presidência durante dois anos. “Nesse período conseguimos alcançar a promoção ao Girabola”, sublinha, referindo-se ao principal campeonato de futebol de Angola.

Actualmente, enquanto director de Marketing, Comunicação e Imagem da A Mundial Seguros, lidera a estratégia de posicionamento da marca num sector particularmente competitivo. Ao Targeting, descreve os últimos 20 meses como um período marcado por transformação organizacional e reposicionamento estratégico. “Foram 20 meses de grande intensidade, aprendizagem e também de transformação. Quando chegámos, o principal desafio era reforçar a presença da marca no mercado e aproximá-la mais das pessoas”, afirma.
Segundo o responsável, o trabalho desenvolvido focou-se na identidade de marca, na dinamização da comunicação e na construção de uma narrativa emocionalmente diferenciadora. “Trabalhámos no reforço da identidade da marca, na dinamização da comunicação e na construção de uma narrativa mais emocional e distintiva”, explica. O balanço, sustenta, é positivo. “Conseguimos aumentar a visibilidade da marca e consolidar a sua presença em diferentes plataformas”.
Para Eufrânio Júlio, a comunicação no sector segurador deve transcender a mera promoção de produtos. “Mais do que comunicar produtos, procuramos comunicar valores, porque acreditamos que uma seguradora deve ser sobretudo um parceiro de vida das pessoas”, sublinha.
Quando assumiu funções, o diagnóstico interno apontava para uma marca com uma base institucional sólida, mas com margem para reforçar a diferenciação no mercado. “A marca tinha uma base consolidada ao longo de vários anos de presença no mercado, mas identificámos espaço para fortalecer a sua diferenciação e visibilidade”, explica. Entre as prioridades definidas estiveram a modernização da comunicação, a valorização dos produtos e o reforço do sentimento de pertença entre os colaboradores. Outro eixo estratégico passou pela consolidação da presença digital da companhia.
Este processo de reposicionamento ocorre num momento simbólico para a empresa, que celebra 20 anos de actividade. Para o director de marketing, o marco constitui sobretudo uma oportunidade estratégica.
“Celebrar 20 anos representa muito mais do que assinalar uma data. É uma oportunidade para reafirmar o percurso da empresa, reconhecer a confiança dos clientes e projectar a marca para o futuro”, afirma.
No plano do mercado, Eufrânio Júlio considera que um dos principais desafios do marketing no sector segurador reside na necessidade de tornar o produto mais compreensível e relevante para o consumidor. “O seguro é muitas vezes percebido como um produto técnico e distante. O nosso desafio é torná-lo próximo e relevante para a vida das pessoas”, observa. Para o responsável, a comunicação deve ser simultaneamente clara, transparente e emocionalmente significativa.
Outro desafio relevante passa pela literacia financeira da população. “É fundamental educar o mercado e ajudar os consumidores a compreender a importância da protecção e da prevenção”, defende, ao mesmo tempo que destaca igualmente mudanças no comportamento do consumidor angolano.
“Hoje o consumidor está mais informado e mais exigente. Procura mais transparência, maior rapidez nos serviços e mais proximidade na relação com as marcas”, afirma.
Paralelamente, cresce a abertura para soluções digitais, o que está a transformar a forma como as seguradoras comunicam e prestam os seus serviços. Para responder a estas mudanças, a estratégia da companhia passa por reforçar a proximidade com os clientes e simplificar a comunicação. “Temos procurado tornar a comunicação mais simples e mais acessível, investindo também na presença digital e na criação de conteúdos que expliquem de forma clara os benefícios dos nossos produtos”, explica.
Na sua análise, o sector segurador angolano apresenta ainda um elevado potencial de crescimento. “Um dos principais desafios continua a ser o nível de literacia financeira e seguradora da população, mas ao mesmo tempo existe uma grande oportunidade para desenvolver novos produtos e expandir a cultura de protecção”, afirma.
Para 2026, a A Mundial Seguros prepara um conjunto de iniciativas destinadas a reforçar a visibilidade da marca e aprofundar a relação com o público. “Temos um conjunto de campanhas institucionais, projectos de proximidade com os clientes e acções de responsabilidade social que serão implementados ao longo do ano”, revela. Algumas dessas iniciativas já começaram a ser executadas no âmbito das celebrações dos 20 anos da companhia, enquanto outras serão apresentadas progressivamente ao longo de 2026.
Eufrânio Júlio em Primeiro Plano
Qual seria o seu “Plano B” se o marketing não lhe escolhesse?
Se o marketing não me tivesse escolhido, ahahaha, provavelmente teria seguido outra área no mundo empresarial, na verdade, já exerço essa função, por isso teremos de marcar outra entrevista para falarmos sobre isso! haha. Para além disso, também estaria ligado ao desporto, especialmente ao futebol, e a tudo o que envolve criatividade. Gosto de pensar “fora da caixa” e explorar ideias inovadoras em diferentes áreas.
Quais campanhas ou projectos de comunicação admira e gostaria que tivessem o seu envolvimento?
Admiro campanhas que conseguem tocar emocionalmente as pessoas e criar impacto cultural. Existem grandes exemplos internacionais, como a campanha da Nike “The Cage”. Aliás, quando estava na SODIBA, já tinha planeado fazer algo semelhante em Angola, com a marca Sagres, na Baía de Luanda. A ideia era montar um “Cage” com os nossos craques nacionais e internacionais, e a campanha teria o título “A Bola é Minha”.
Além disso, gosto particularmente de um projecto que desenvolvi durante 12 meses em parceria com a TV Zimbo, em plena pandemia: o Bar Luandina. Este projecto ficou no Top of Mind das pessoas e contribuiu significativamente para o reposicionamento e o awareness da marca num período crítico. Tornou-se parte do dia a dia das pessoas e teve um contributo muito importante para todos nós. Isto é, para mim, o que chamo de “Marketing com Alma”, título que futuramente será também o tema do meu livro sobre marketing.
Acredito que África e Angola têm cada vez mais talento criativo capaz de produzir campanhas memoráveis, e projectos como estes mostram como é possível envolver o público de forma inovadora, emocional e impactante.
Que aptidões “extra marketing” um markteer dos tempos actuais deve ter?
Um markteer hoje precisa de compreender comportamento humano, cultura, tecnologia e dados. Mas acima de tudo precisa de ter sensibilidade para entender pessoas.
Qual é para si o maior desafio do profissional de marketing no mercado angolano?
O maior desafio é conseguir construir marcas fortes num mercado que ainda está em desenvolvimento, onde muitas vezes é necessário educar o consumidor e construir confiança ao mesmo tempo.
Ter um briefing muito bem feito, ou um orçamento ilimitado? Justifique a sua resposta.
Sem dúvida um briefing bem feito. Um bom briefing orienta a estratégia, define o problema e aponta o caminho. Sem isso, mesmo com muito dinheiro, a comunicação pode perder-se.
Para si a marca forte é aquela que…?
Uma marca forte é aquela que consegue fazer parte da vida das pessoas e manter uma relação de confiança ao longo do tempo.
Redacção: ola@targeting.ao


