O ambiente corporativo, independentemente da geografia, é um sistema complexo de relações, interesses e decisões. Para compreendê-lo de forma clara e prática, a analogia com o xadrez continua a ser uma das mais eficazes. No entanto, tal como no próprio jogo, o contexto influencia profundamente a forma como se joga.
Ao unir uma perspectiva global com a realidade africana, e particularmente angolana, percebemos que não basta conhecer as peças. É fundamental entender o tabuleiro, as regras visíveis e invisíveis, e, sobretudo, a forma como o poder é exercido.
As peças são as mesmas, mas o jogo não é igual. Em qualquer organização, podemos identificar uma estrutura semelhante ao xadrez, dependo da dimensão e do volume de negócios da empresa:
- O Rei (dono da empresa) representa a continuidade e a autoridade máxima. A sua estabilidade define a sobrevivência da organização.
- A Rainha (por ex: Administrador/Director) é a peça mais dinâmica, responsável por transformar estratégia em execução.
- Os Bispos, Torres e Cavalos correspondem à liderança intermédia (directores, gestores e chefes de áreas como Finanças, TI, RH ou Operações) cada um com o seu estilo de actuação.
- Os Peões são os profissionais técnicos e operacionais, a base que sustenta toda a estrutura.
Globalmente, este modelo tende a funcionar com algum nível de descentralização: decisões distribuídas, processos claros e maior autonomia das peças.
Contudo, em muitos contextos africanos, e de forma bastante evidente em Angola, o mesmo tabuleiro apresenta uma característica distinta: a concentração de poder.
Aqui, o Rei não é apenas simbólico. Muitas vezes, decide, intervém e influencia directamente o jogo. A Rainha pode ser poderosa, mas frequentemente opera dentro de limites bem definidos. As restantes peças movem-se com cautela, e os peões, embora essenciais, dependem mais do posicionamento do que da mobilidade.
- 1. Entender o jogo
Existe um mito persistente no mundo corporativo: o de que talento e competência técnica são os principais factores de sucesso e permanência.
A realidade, tanto em contextos globais quanto africanos, mostra algo mais complexo.
Os profissionais que mais perduram e evoluem nas organizações não são necessariamente os mais talentosos. São, na sua maioria, os que compreendem o jogo organizacional.
E esse entendimento passa por reconhecer que:
- As decisões nem sempre são puramente racionais — muitas são influenciadas por relações e percepções;
- A visibilidade e o posicionamento estratégico podem ter tanto peso quanto a performance;
- A capacidade de leitura do ambiente é um diferencial crítico.
2. O equilíbrio necessário
Num contexto mais global, o jogo tende a ser mais estruturado:
- Processos claros;
- Critérios de avaliação definidos;
- Maior previsibilidade nas decisões.
É como se, no mesmo tabuleiro, coexistissem dois estilos de jogo:
- Um mais técnico e processual;
- Outro mais relacional e adaptactivo.
3. Como jogar bem em qualquer tabuleiro
Independentemente do contexto, há princípios universais para quem quer jogar bem o “xadrez corporativo”:
Conheça o tabuleiro – entenda a cultura da organização, as regras formais e informais e como o poder circula.
Leia o centro de poder – especialmente em ambientes centralizados, perceber como o topo decide é essencial para alinhar acções.
Invista em competência, mas também em relações – Competência abre portas; relações mantêm-nas abertas.
Posicione-se com inteligência – Nem sempre o esforço mais visível é o mais recompensado. Estar no lugar certo, com as pessoas certas, faz diferença.
Desenvolva influência, não apenas execução – saber fazer é importante. Saber influenciar decisões é estratégico.
Respeite o contexto cultural – o que funciona num ambiente pode falhar noutro. Adaptabilidade é uma competência-chave.
Pense a longo prazo – tal como no xadrez, movimentos impulsivos podem comprometer o jogo. Estratégia exige paciência.
- 4. O papel dos peões: subestimados, mas decisivos
Uma das maiores lições do xadrez, e das organizações, é o poder dos peões.
São eles que:
- Sustentam a operação;
- Criam base para decisões estratégicas;
- E, quando bem posicionados, podem crescer e transformar-se.
No contexto angolano, isso é ainda mais relevante: o crescimento muitas vezes não depende apenas da performance, mas da capacidade de ler o momento, construir relações e posicionar-se correctamente.
Consciência é poder
Unir a perspectiva global com a realidade africana permite uma leitura mais completa do jogo corporativo. Não se trata de escolher entre mérito e relações, entre técnica e estratégia, mas de entender que o sucesso está na combinação desses elementos.
Ignorar o jogo é um risco. Jogá-lo sem ética é um erro.
O verdadeiro profissional distingue-se por conseguir:
- Entender o sistema;
- Adaptar-se ao contexto;
- E agir com inteligência, consistência e integridade.
No final, tal como no xadrez, o objectivo não é apenas continuar no tabuleiro — é saber jogar cada movimento com intenção e ganhar o jogo.
No entanto, qualquer peão astuto pode converter-se numa Rainha, mas nunca num Rei.
Continua…
Até o próximo artigo.

Luís Joaquim
Especialista em Gestão e
Desenvolvimento Humano


