Publicidade

Quem deve gerir a imagem interna e externa de Angola?

Targeting
Por Targeting
6 minutos de leitura
Tamanho da Fonte

No início da segunda semana do mês de Dezembro de 2025 ganhou repercussão nas redes sociais a posição pública do cantor C4 Pedro, agora também conhecido como Nzamba N’kuku Mpetelo Messami, ao publicar um vídeo em que defendia a imagem externa de Angola e percepção que outros povos têm sobre os angolanos.

Tal posicionamento tornou-se rapidamente polémico. A maioria não compreendeu os pontos essenciais defendidos pelo artista e optou pela crítica directa, revelando uma dificuldade recorrente de leitura crítica de temas sensíveis e de interesse colectivo.

Do ponto de vista da comunicação institucional, este episódio permite levantar duas questões centrais de inegável relevância social: o que têm feito os media angolanos no domínio da promoção cultural e do humanismo? E como gostariam, de facto, os angolanos de ser vistos por outras nações, em particular as europeias e americanas?

Para compreender este debate é inevitável olhar para o percurso histórico do país. Para além de cerca de cinco séculos de colonialismo português, Angola viveu, de forma sequencial, 27 anos de conflito armado. Estes dois períodos deixaram marcas profundas, que ainda hoje influenciam o quotidiano do cidadão angolano e a sua forma de ver o mundo.

O angolano é, em essência, um povo determinado a construir uma nação. Contudo, convive-se ainda com níveis baixos de literacia em várias dimensões. Há no país um número considerável de cidadãos com títulos académicos, mas parte deste grupo carece de sentido crítico e de capacidade para análises holísticas das realidades que afectam o país e as suas próprias vidas.

Após o fim da guerra civil, em 2002, Angola implementou diversos programas institucionais voltados para a promoção do civismo e da literacia cultural. No domínio dos valores cívicos, tornaram-se amplamente conhecidas figuras como Papá Ngulo e Chico Caxico. Na promoção cultural, a peça teatral “O Feiticeiro e o Inteligente”, comumente conhecida como Kamba Mbiji, tornou-se um fenómeno nacional.

Paralelamente, existiram outros programas promovidos pelos media públicos convencionais que, a médio e longo prazos, tiveram impacto positivo na formação do novo homem angolano, um cidadão com carácter, identidade cultural e capacidade de dialogar com a modernidade, preparado para responder aos desafios da nação. Até aqui, tratei essencialmente de iniciativas ligadas à construção da imagem interna.

No plano da imagem externa, isto é, da percepção que outros povos têm de Angola, até 2016, por exemplo, o país contou com uma imprensa especializada na criação de programas institucionais dedicados à promoção de referências angolanas. Desses esforços emergiram figuras de destaque internacional, como a ex-Miss Universo Leila Lopes e a modelo internacional Maria Borges.

No campo cultural, particularmente na música, o Kuduro era promovido internacionalmente através de programas específicos, contribuindo para a valorização de fazedores locais e para a projecção de uma identidade cultural própria. No sector cinematográfico, registava-se uma produção local mais consistente de novelas e até filmes, alguns dos quais alcançaram projecção internacional. A novela Windeck, por exemplo, foi a primeira produção angolana e africana exibida no Brasil e, mais tarde, exibida em versão francesa no canal norte-americano BET.

Para além dos programas de promoção interna e externa, é igualmente relevante notar que os Estados adoptam mecanismos de protecção da sua imagem. Recentemente, por exemplo, o Dubai impediu a divulgação nas redes sociais de imagens de algumas ruas após fortes chuvas. Nos Estados Unidos, publicações negativas sobre o país nas redes sociais podem servir de fundamento para o cancelamento de viagens.

É, por isso, urgente que o governo angolano continue a trabalhar de forma articulada na promoção de um país forte e de cidadãos fortes. Importa consolidar uma narrativa em que o angolano deixe de ser associado à fome e à mendicidade, passando a ser reconhecido como um ser humano pleno, com cultura, alma e identidade.

Neste contexto, a comunicação interna e externa deve ser encarada com seriedade. A imprensa deve ser chamada a promover debates que contribuam para a formação da opinião pública, pois esses espaços ajudam a educar os povos e a melhorar a percepção externa de um país.

A exploração de assuntos internos de forma sensacionalista, reforçando imagens de carência e de um povo pedinte, deve ser reprovada. Independentemente dos desafios reais que o país enfrenta, este tipo de abordagem tende a produzir, a curto ou longo prazos, impactos negativos na forma como Angola é vista no exterior.

Os gestos de caridade são sempre legítimos, mas a exposição excessiva do negativo deve ser evitada. Num contexto de dificuldades, a imagem externa de Angola deve ser protegida, sem ignorar problemas urgentes como a fome e a desigualdade, cuja abordagem exige respostas sérias. A valorização desmedida dos aspectos negativos pode comprometer a percepção do país e afastar investidores e turistas, sobretudo quando se sobrepõe à divulgação de referências positivas.

Por estas razões, torna-se pertinente convidar os órgãos de comunicação social a assumirem este tema como prioridade na agenda pública, fomentando um debate responsável, crítico e construtivo sobre a imagem de Angola e sobre quem, afinal, deve geri-la.

Leocarpo Manuel

Especialista em Comunicação Institucional

Compartilhe este artigo

Publicidade

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *