Há algo que tenho observado cada vez mais no nosso mercado: frequentemente confundimos competência com exposição. Não é raro ver alguém com boa oratória, presença forte no LinkedIn ou domínio do digital ser automaticamente classificado como “grande marketeer”. Fala bem. Aparece. Tem opinião. Logo, é referência.
Mas será que isso basta?
Não estou a desvalorizar quem se expõe. Comunicação é uma competência legítima. Saber estruturar pensamento em público é valioso. O problema começa quando a visibilidade passa a ser o único critério de validação.
E, em boa verdade, marketing não é apenas palco.
É tomar decisões difíceis sobre onde competir e como vencer.
É escolher um posicionamento e assumir o que se perde ao fazer essa escolha.
É transformar entendimento profundo do consumidor numa proposta de valor clara.
É alinhar produto, preço, distribuição e comunicação com essa proposta.
É garantir que aquilo que prometemos é sustentado pela operação.
É medir, ajustar e assumir responsabilidade pelos resultados.
É isso — e muito mais.
Grande parte desse trabalho não é filmável. Não é “sexy”. Mas é aqui que o jogo se ganha ou se perde.
O mercado angolano tem uma particularidade: ainda estamos a construir critérios. E quando os critérios são frágeis, o que aparece mais alto é o que parece maior. Visibilidade torna-se sinónimo de autoridade. Autoridade torna-se sinónimo de competência.
E, no entanto, há profissionais extraordinários — estratégicos, profundos — que não procuram palco. São menos extrovertidos. Mais reservados. Preferem o trilho do trabalho ao ruído da exposição. E, paradoxalmente, são muitas vezes os que sustentam as marcas que admiramos.
Ao mesmo tempo, é verdade: nem todo o profissional silencioso é brilhante. Discrição não é sinónimo de profundidade. Tal como boa oratória não é sinónimo de superficialidade.
A questão não é atacar quem aparece. A questão é perguntar, de forma genuína: com que critérios estamos a avaliar aquilo que consumimos?
Se amanhã tivéssemos de escolher quem lidera marketing numa empresa — grande ou pequena — em Angola, escolheríamos quem fala melhor ou quem executa melhor? Quem tem histórico de resultados ou quem tem maior presença digital?
E há ainda uma pergunta mais ousada: se alguém é realmente excelente, porque não cria mecanismos para que o mercado compreenda o seu valor?
Talvez o verdadeiro desafio não seja escolher entre exposição e profundidade. Talvez seja integrá-las — cada um à sua maneira.
Precisamos de marketeers que reflictam mais antes de falar. E de marketeers que mostrem mais antes de ensinar.
Mas também precisamos que os bons elevem o debate, documentem processos, expliquem o raciocínio, mostrem como chegaram às decisões.
O contraponto é simples: estamos a construir e a admirar profissionais íntegros — ou apenas performers?

David Moisés
Estratega de Marcas e Negócios


